Publicado por: Fausto Rêgo em: maio 19, 2012
Era um pobre coitado que pouco ou nada sabia do que realmente devia saber (e isto ele sequer imaginava o que fosse). Fazia versos e comia o pão que o diabo amassava, saboreando-o com um bom tinto do Dão. Começou por se chamar Fernando, depois Vinícius, quis caetanear o que havia de bom, travestiu-se de Lygia, até sonhar que era Leminski e acordar ciente de quão infausta podia ser a rotina de um poeta.
Naturalmente, sua vida era feita de dias, e dos dias sabemos que são iguais, mas não se repetem. Por isso não surpreende que em um desses dias tão iguais, diante da mesma imagem no espelho, tenha percebido outra pessoa. Narciso, intuiu. E apaixonou-se pela imagem que ele próprio criara.
Consumiu-se noite afora a escrever cartas de amor ridículas.
Voltou no dia seguinte com seu melhor terno. Tornou ao espelho, não havia lá mais ninguém. “Infausta vida de poeta”, pensou. “Nem mesmo sei seu nome…”
Nessa noite, madrugada alta, decidiu quebrar o espelho e lançar os olhos contra a escuridão. E no escuro, sem sequer saber quem era, escreveu toda a sua obra.
* Parodiando a descrição de José Saramago sobre Fernando Pessoa, in “Cadernos de Lanzarote”, São Paulo, Cia. das Letras, 1997, p. 642-644.
Publicado por: Fausto Rêgo em: fevereiro 12, 2012
queima
e o inferno se apossa
de mim ‘quanto
teima
a centelha do
coisa-ruim como
cisma
a cura que brota
do-in e
abisma
calor que resseca
o mal e a
lama
a luz que ilumina
o pó e a
trama
a chama que cabe
na luz e na
lâmpada
o sopro que brota
do tal
filamento
o gênio que parte
do céu ao
inferno
o fogo que
parte
o fio
que re
parte
a luz
Publicado por: Fausto Rêgo em: dezembro 23, 2011
hole
the whole day after
life
nothing to offer
by half past midnight
remains the laughter
it’s way past time
to drop a tear
it’s way past time
to tear apart
it’s about time
to get a cover
it’s about time
to talk things over
Eve is gone
at Xmas night
down the chimney
ain’t nothing more
Eve is such a
gorgeous site
and got a life
she can’t afford
Publicado por: Fausto Rêgo em: dezembro 22, 2011
Dança da chuva!
Caem a bastilha
e o último bastião
“J’ai del-étè”
Vocês verão
Publicado por: Fausto Rêgo em: dezembro 22, 2011
Tanto calor que faz
aqui na Praça Paris
Que pifa o processador
E o aviso na tela diz:
“Pas désolé
J’ai del-étè”
Publicado por: Fausto Rêgo em: novembro 10, 2011
Sintonia
A onda sonora afaga
A orelha fria
Publicado por: Fausto Rêgo em: novembro 9, 2011
Vale uma reminiscência? Então aqui vai!
Este é um texto antigo, datado, que fala sobre futebol e faz mais sentido para os cariocas e aqueles que conhecem o Rio. Na época, o técnico do Brasil ainda era Vanderlei Luxemburgo. E Ronaldo “Fenômeno” estava metido em uma polêmica por ter sido convocado para a seleção olímpica, que disputaria um torneiozinho sem importância na Austrália. Detalhe: Ronaldo não tinha idade pra disputar a Olimpíada, a Inter de Milão – seu clube – não queria cedê-lo, mas Luxemburgo batia o pé e ameaçava ficar de mal com o craque, pois fazia questão de tê-lo jogando o tal torneio.
Em linhas gerais, era mais ou menos isso. E em plena Ipanema, bairro nobre do Rio de Janeiro, bípedes e quadrúpedes reuniam-se para comentar as últimas do homo sapiens.
Antes de tudo, um perfil dos personagens:
Galo Osório
Nascido e criado em Ipanema, é bem-humorado, metido a filósofo e gosta de contemplar a rotina dos pobres humanos. Para comer, prefere pipoca, mas às vezes disputa grãos de milho com os pombos.
Mac Cabra
Leva uma vida tranquila e sem inimigos, mas é pessimista por natureza (ou talvez por batismo). Está sempre “de bode”, como costuma dizer. Acredita, ninguém sabe por que, ter ascendência britânica e solta expressões em inglês de vez em quando.
Sueli
Su, para os íntimos (e não são poucos). Uma galinha. Literalmente. Elétrica, namoradeira, vê seus pretendentes acabarem quase sempre na panela. Se arranja, vez ou outra, com o Galo Osório, embora o ache meio pedante.
Cao
Vira-lata, conhece o morro inteiro e é querido por todos. E tem lá o seu charme. Usa um boné que lhe foi dado por um poodle da Vieira Souto. Na verdade, ele se chama Carlos Alexandre de Oliveira, mas acha que isso é nome de “cachorro de madame” (ou, como diz, razão social), por isso prefere o apelido.
Porco Vado
Nasceu em Santa Tereza, perto do Cristo Redentor, mas saiu de lá por desavenças com a vizinhança, que teimava em requisitá-lo para participar das feijoadas de sábado – como ingrediente. Culto, acessa a internet com frequência usando um inseparável laptop que liga no próprio focinho. Adora participar de chats e usa o nick “Francis_Bacon”.
O samba do cachorro doido
Cao chegou esbaforido pra contar a novidade:
– Gente, o Ronaldinho foi cortado!
Sueli nem reagiu, ocupada que estava em cacarejar para um belo surfista que passava, em doce balanço, a caminho do mar. Mas Mac Cabra não conteve o espanto:
– My goodness! Foi o joelho! Só pode ter sido o joelho!
– Calma, que não foi nada disso! – interveio Porco Vado, sem desgrudar do laptop. Estou num chat com um amigo australiano que me garantiu que foi ordem da Fifa.
– Isso, Vado, foi isso! Mas tem mais! Eu vi na TV que o…
– Peraí, Cao! – interrompeu o Galo Osório, que até então assistia a tudo impassível. Que história é essa de TV? Que eu saiba, televisão de cachorro é máquina de assar frango!
– É que botaram uma televisão de verdade na padaria! Você vai me deixar contar ou não vai?
– Fala!
– O Luxemburgo tá danado da vida com o Ronaldinho. Falou que ele devia ter tentado convencer os caras da Internazionale a deixar que ele ficasse por lá. Agora tá dizendo que só convoca ele pra Olimpíada se estiver jogando bem no clube.
– Isso se a gente se classificar para Sydney, of course! – lembrou Mac Cabra.
Cao saltou sobre as quatro patas:
– Sai com essa boca pra lá, nojenta! É claro que a gente se classifica! Agora me digam: se o negócio é convocar pelo que o sujeito joga no clube, por que é que ele chama o Ronaldo a toda hora? O cara não tá jogando nada faz tempo! Por isso é que os italianos ficaram na bronca! O homem aparece lançando relógio em Hong Kong, visitando as criancinhas em Kosovo, beijando a Milene na Caras, assistindo ao desfile do Armani… Só quando entra em campo é que ele não é notícia! O cara tem que treinar mais, pô! Aí vem o Luxemburgo e chama o rapaz pra passar não sei quantos dias na Austrália. Na Austrália, gente! É longe paca!
Vado levanta os olhos:
– Paca? Tem uma aqui no chat. Quer que eu pergunte alguma coisa?
Cao ignora:
– O pior é que o Ronaldinho nem tem idade pra jogar o Pré-Olímpico! Será que o pessoal da CBF acha que os italianos entendem essa lógica brasileira? O cara é convocado para uma seleção que vai jogar um torneio que ele não pode disputar! Isso é o “samba do crioulo doido”!
Sueli desperta:
– Samba? Diz aí! Onde vai ser?
Galo Osório não perde tempo:
– Lá no morro, Su! Vem comigo?
E ela, já se deixando levar, mas ainda medindo de cima a baixo o surfista, que a essa altura ia longe:
– Vambora, né? Quem não tem cão…
Os dois saem lentamente. Cao resmunga:
– Cachorra…
Publicado por: Fausto Rêgo em: setembro 2, 2011
Entrou sem dizer palavra, sentou no divã e olhou em direção à parede. Usava óculos de lentes e armação finas, discretas. Cabelos bem penteados, paletó e calça azuis, camisa social clara e gravata grená. Sapatos pretos de salto anabela. Segurava com delicadeza, na mão esquerda, uma cuia de chimarrão em formato de seio.
Logo atrás veio a vaca. Circunspecta, ar solene, soltou apenas um “boa tarde” seco e permaneceu em pé num canto, abraçada à pequena bolsa vermelha que segurava com bastante cuidado.
A analista fechou a porta sem surpresa, ocupou sua poltrona e permaneceu em silêncio. A vaca abriu a bolsa vagarosamente, retirou de dentro um pequeno exemplar do Minuto de Sabedoria e começou a ler, distraída, enquanto o homem olhava para um ponto fixo na parede.
“Muito bem… quem vai começar?” — era a analista tentando quebrar o gelo. O homem e a vaca se entreolharam rapidamente. Nenhuma palavra. Nova tentativa: “Alguém tem de começar…”.
A vaca abaixa o livro lentamente, mira a analista sem virar a cabeça e dispara em tom de deboche: “Mu!”. O homem finalmente sai da letargia.
“Vê? Ela sempre faz isso!”.
A analista, incrédula:
“A vaca… muge?”.
“Não! O deboche! O escárnio! O sarcasmo, não percebe?”.
“Hum-hum…”
“Ela faz tudo pra me irritar, tudo! Ironiza minhas atitudes, minhas reações, até meu silêncio!”
O homem se inclina em direção à analista e sussurra: “Essa vaca vive pra me provocar”.
“Sei… e vocês já tentaram conversar sobre isso?”
O homem olha em direção à vaca, que continua a ler.
“Tentaram?”, ela insiste.
A vaca solta um longo suspiro e repete: “Mu!”.
O homem acaricia a cuia nervosamente, a vaca retoma a leitura, a analista fica inquieta.
“Não estamos evoluindo muito.”
A vaca fecha o livro e o guarda novamente na bolsa. Senta-se em uma cadeira, cruza as pernas, esboça um sorriso e finalmente fala: “Idiossincrasias”.
“É isso? Uma síntese?”
“Uma tese. Vivemos em universos paralelos. Ele tem problemas de autoestima, se apega àquela cuia como se fosse o seio da mãe.”
O homem se encolhe e aninha a cuia nos braços. A vaca prossegue.
“Eu sou apenas uma imagem, um delírio, quem sabe uma culpa. O leite derramado”, diz, apertando o úbere.
“Ele não se livra de mim porque não quer, porque se contorce de medo de enfrentar a manada. Se quisesse de verdade, eu já estaria comendo capim pela raiz”.
O homem, então, se levanta e segue em silêncio em direção à porta. A vaca, ar solene e compungido, também se ergue e toma o mesmo rumo. Antes de bater a porta, certifica-se de que o homem já está a uma certa distância, pisca o olho para a analista, balança as tetas e diz, debochada:
“Muuuuuu!”
Publicado por: Fausto Rêgo em: agosto 26, 2011
Millôr Fernandes:
“Deixei a sombra em casa
E me queimei por aí
Como uma brasa”
Não é o calor, nem a brasa
O que me move é a brisa
sobre a asa
Publicado por: Fausto Rêgo em: agosto 17, 2011